Há pouco uma amiga me falava com entusiasmo de seus estudos acadêmicos sobre Zizek. Expressei minhas reservas, mas percebi que preguei no deserto (talvez seja mais feliz agora). Nos últimos dias vi em um blog amigo o anúncio da sua visita ao Brasil. É um dos téoricos da moda na vertente anti-humanista de esquerda, aqueles que não aprendem nada com a História. Segue abaixo trecho de um artigo de Ruy Fausto sobre Badiou e Zizek publicado na revista Fevereiro (ao lado há o link do site). O artigo inteiro está no link
http://www.revistafevereiro.com/01/mkk1.html. Mais do que uma ótima análise, o texto de Ruy Fausto é uma denúncia do horror embutido no pensamento de Zizek
(...)Trata-se da posição que Zizek assumiu no que concerne a certos fatos ocorridos na guerra do Vietnã. Tendo ocupado uma cidade, os americanos, provavelmente por razões de propaganda, tomaram a iniciativa de vacinar (no braço) um certo número de crianças. A cidade veio a ser reconquistada pelos vietcongs. Para eliminar definitivamente a possibilidade de iniciativas como aquelas, que poderiam melhorar a imagem dos americanos perante as populações, os vietcongs simplesmente cortavam o braço das crianças vacinadas. Zizek comenta essa medida: “ (...) ainda que seja dificil sustentar como modelo literal a seguir, esta plena rejeição do Inimigo precisamente no seu aspecto de ajuda “humanitária“ (“in its helping “humanitarian“ aspect“) qualquer que seja o seu custo, deve ser apoiada na sua intenção básica“[xiii]. Apesar da concessiva “mole“ no seu início, como se dizia antigamente não se sabe o que mais admirar nesse texto: se a ignomínia moral do apoio a um ato cruel e brutal contra uma criança, ou se a cegueira teórica e prática, de quem supõe – mas supõe mesmo, ou aprecia a violência pelo amor da violência ? – que meios como este podem ajudar numa luta que, em principio, seria um combate por uma sociedade emancipada. A anfibolia é, de novo, de tipo anti-dialético: não se entende que, a partir de certo limite, determinados meios entram em contradição com seus fins e os intervertem.
Diante de tudo isto, cabe a pergunta final : que grau de confusão, no interior da esquerda – o que não significa, deixo claro, que as luzes da direita sejam mais brilhantes – explica esse fenômeno estranho da aceitação de um discurso como esse por parte de muita gente (e nem sempre medíocre), enquanto modelo teórico “interessante“ ou rigoroso de uma política para a esquerda ?"
Marcio, excelente o artigo do Ruy. Mas quero explicações suas sobre a parte final, que, em parte, fugiu à compreensão desta leiga em filosofia....
ResponderExcluirAnfibolia? Acho que é isso que vc quer saber. Reflexão confusa, perdida, desarticulada, duvidosa. Tecnicamente, na filsofia de Kant, é um defeito no modo de o sujeito usar a razão no conhecimento das coisas, mas entrar por aí precisa escrever muito, e acho que nem precisa. No texto do Ruy Fausto ele quer chamar a atenção para a contradição de um pensamento que quer emancipar a humanidade com métodos torpes. Quer mais confusão do que isso? Se não era essa parte, diga. bjs
ResponderExcluir