Entre 1933,
advento do nazismo, e 1945, final da II Guerra, 35 milhões de pessoas foram
aniquiladas. Isto não se executa com poucos. É preciso muita gente que mate
cumprindo ordens.
Milgram,
psicólogo norte-americano, fez uma experiência em 1963 movido por esse fato.
Até que ponto as pessoas podem ir pelos mecanismos da autoridade e da obediência? A experiência se tornou um
clássico da Psicologia.
Os sujeitos não
sabiam o real objetivo do experimento. Eram instruídos a aplicar choques, por
meio de uma máquina, em uma pessoa que
respondia perguntas. A cada resposta errada a intensidade do choque devia
aumentar. O primeiro era de 15 volts, até o limite de 450 volts (classificado
pela máquina como “choque severo”), mas na verdade suficiente para matar uma
pessoa.
Os choques eram
fictícios. Quem respondia as perguntas
apenas fingia. E à medida em que a intensidade do suposto choque aumentava, simulava mais dor e pedia aos gritos que parassem. O
experimentador ao lado do voluntário o instruía a continuar porque a
pessoa havia concordado antes com a experiência.
O resultado foi
espantoso. 65 % das pessoas aplicaram os choques até o limite de 450 volts. O mecanismo da obediência a uma frágil autoridade, sem nenhum caráter coercitivo, por mera
instrução verbal, foi para esses 65% determinante para infligir
dano grave, sofrimento e o risco de morte a outra pessoa. O relato da
experiência feito pelo próprio Milgram está aqui.
A conclusão é
que para a moralidade média – a moralidade da maioria das pessoas – a vida e o
bem-estar do outro não são valores fundamentais. Era assim em 1963 nos EUA e
não podemos deixar de supor que é assim aqui e agora. Um suposto “dever”
de obediência, a ordem estabelecida, uma convicção política, uma confissão
religiosa (vide os fundamentalismos religiosos) a propriedade, entre
tantas outras coisas, mostram-se prioritários em relação à vida. Muito
frequentemente o ressentimento, o preconceito e a intolerância – as emoções
mais vulgares – fazem desaparecer qualquer resquício do valor básico da
moralidade que é a vida do outro.
A inacreditável
campanha para Lula tratar-se no SUS (com 120 mil adesões no Facebook, segundo
dados do dia 4 de novembro) é um exemplo disso.
No nosso caso há
ainda um componente histórico e social que, penso, tem a ver com o passado
escravocrata do qual nunca a sociedade brasileira se libertou de todo. Joaquim
Nabuco dizia que a escravidão moldou perversamente a sociedade brasileira. A empregada doméstica, o serviçal, o operário,
qualquer um que esteja abaixo da classe média na escala social, são “quase-pessoas”. E como essa gente reage
quando uma “quase-pessoa”, operário, nordestino, pau de arara,
rompe os limites sociais para chegar à presidência da República e ainda se torna uma personalidade mundial? Estamos vendo.
A euforia com a doença, disse Marcelo Semer em sua coluna do Terra, é pior do
que o câncer. Gilberto Dimenstein, na UOL, afirmou sentir um misto de vergonha
e enjôo pelos e-mails que recebeu. Maria Inês Nassif, na Carta Maior, foi
contundente e precisa: "a compulsão da elite brasileira em tentar
desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar
todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal,
para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso".
Expressaram com
palavras fortes a repulsa moral ao episódio. Porque o problema é
mesmo essencialmente moral.
O fato de se tratar de uma doença terrível,
que mata e muitas vezes aniquila dolorosamente a pessoa antes da morte, não
disse nada a milhares de pessoas (milhões, se tomarmos as redes sociais como
uma certa amostragem da população). Foi apenas a deixa para que emergisse o
ódio de classe, o preconceito e o rancor submetendo implacavelmente o valor da
vida.
Pode-se fazer
uma ressalva. Muita gente terá visto tudo como uma graça apenas e
aderido impensadamente. Provavelmente não estariam nos 65% de Milgram e não
estão eufóricos de verdade com o tumor
de Lula. A indignação que a campanha suscitou – do que são exemplos os textos
contundentes de Semer, Dimenstein, Inês Nassif e tantos outros – deve ser
para essas pessoas um sinal de que a brincadeira não era boa e a oportunidade para uma reflexão sobre ao lado de quem às vezes se acaba ficando. Tenho amigos no facebook, por exemplo, que se enquadram nesta categoria e espero que entendam o que estou dizendo aqui.
Os outros – os
movidos pelo ódio e pelo ressentimento político - não alcançam, por suas estruturas racionais,
o que os filósofos formalistas (formalistas porque para eles o que determina a moralidade
é o modo de raciocinar) de filiação kantiana denominam de reversibilidade: devemos viver com ações que seriam as mesmas se a nossa posição
fosse a do outro.É o "ideal role taking".
Para uma conduta ser moral precisa passar,
pois, pelo teste da reversibilidade. Os
sujeitos da experiência de Milgram não passaram. Não reverteram sua posição
para a de quem, mesmo concordando antes com a experiência, desistisse por
não suportar a dor. No horizonte moral deles o conceito de autoridade era
superior ao do bem-estar do outro.
Há no Brasil uma
elite que ainda pensa como os senhores de escravos. Como os que estão "embaixo" são
“quase-pessoas”, sequer são passíveis de reversibilidade.
Enfim,
para os que ainda não perceberam o sentido do episódio, recomenda-se o
teste da reversibilidade: como gostariam de ser tratados se tivessem um tumor
maligno? Seria uma boa ocasião para que o seu adversário político fizesse uma
revanche desconsiderando a sua dimensão humana e o seu drama pessoal? Basta usar a reversibilidade. É o suficiente.
1o. O "protesto" é iniciado por xenófobos, muitos destes, filhinhos de papai que enchem a cara na balada e capotam seus lindos carrinhos importados (ps. e são salvos pelo SUS/SAMUs óbvio), e que em tom mórbido e cretino desejam que nosso ex-presidente Lula se trate pelo SUS.
ResponderExcluir2o. Não perdendo a deixa, os anti-Lula de plantão, que claro, mantendo um fundinho de preconceito, dão força ao movimento (movimento similar ao CANSEI!) só que desta vez pouco ou mal informados (destes que assistem Globo, leem a VEJA, a Folha....) manifestam seu "protesto" a favor da saúde pública (como se dependessem da mesma...) e ainda argumentam "tem gente que espera na fila", "tem gente que morre todo dia" e "blablablabla".
3o. Depois o inocente, movido pela ignorância desta vez, entende que o "protesto" é válido (bom momento este, utilizar a saúde alheia para melhorar nossos serviços de saúde) e da-lhe força.
4a. Como não podia ser diferente os mais esclarecidos e coerentes, inclusive anti-Lulas, apartidários e afins (não podemos esquecer de FHC) chegam e falam PARA TUDO, que merda vocês estão fazendo??? E pipocam inúmeros depoimentos esclarecedores jornalistas, especialistas, comentaristas de política metendo o pau e detonando o referido "protesto". Ai o mesmo movimento de uma hora para outra perde sua força...
5o. "mimimimi" mas ele não disse isso, disse aquilo sobre o SUS e blablabla... PARA!
Meu conselho: Se você participou deste movimento, sai de fininho, finje que não aconteceu nada e TORCE para que niguem lembre da Merda que você fez.
Prezado Márcio,
ResponderExcluirGostei muito de seu texto - digo-o sinceramente.
Não recrimino a manifestação, mas me surpreendi com a quantidade posterior de expressões de ressentimento e mau agouro.
Talvez eu esteja na cota de 35%, ainda que não tenha conseguido distinguir a autoridade à qual me estou vinculando. Seu texto me aproveita ao reforçar a necessidade de estar-se atento ao que passa por trás de nossas convicção. Por enquanto, nesta oportunidade, assim como naquela outra da marcha contra a corrupção, tenho a convicção de que sigo um caminho sincero, que dirige à construção de um lugar melhor para todos, especialmente aos segregados pelos resquícios da cultura escravagista ao qual você se referiu.
Mas, o que houve de melhor foi a menção ao mecanismo da reversibilidade. Me fiz, com este espírito, as seguintes perguntas:
"Sendo o Presidente do Brasil, me permitiria fazer graça com o sistema de saúde?"
"Tendo sido o Presidente do Brasil, e tendo feito graça com o sistema de saúde, me incomodaria com a série de manifestações desencadeadas por um problema de saúde meu?"
"Tendo sido o Presidente do Brasil, que fez graça com o sistema de saúde, e me vendo às voltas com a aflição de um enfermidade grave, aproveitaria a oportunidade para me desculpar por aquele gracejo?"
Respondi negativamente às duas primeiras perguntas e afirmativamente à última.
Enfim: Há erros de ambos os lados (e, sabemos, ódio de ambos os lados), e considerar que uns se compensam com os outros é falacioso. Portanto, é hora de reconhecer os equívocos, corrigi-los na medida do possível (no caso, não é possível) e, o mais importante, não repetí-los.
Caio, há também uma distinção entre reversibilidade e reciprocidade. É fácil confundir, mas são muito diferentes. Reciprocidade é o fundamento da Lei de Talião. Vc acha que o presidente errou, e está querendo dar o troco. Olho por olho, dente por dente. No conceito de reversibilidade o que se vê é somente o respeito à pessoa.
ResponderExcluirMarcio
Márcio, desculpe-me, mas você se socorre num expediente que não é válido, qual seja, o de pretender prescrutar minha mente e identificar algo que eu penso que sequer eu mesmo sei que penso! Reconheço seu conhecimento invejável e enciclopédico, mas lhe garanto que de clarividência você não dispõe.
ResponderExcluirIsso porque você se engana em parte. Você está correto em entender que acho que o presidente errou - e acho que você, e qualquer outra pessoa, têm a mesma opinião. Mas está enganado ao presumir que desejo dar-lhe o troco.
Aliás, sequer dirijo ao presidente alguma mensagem. Porque presidente (como você se referiu a ele) ele não é. É ex, é história.
A mensagem é aos homens públicos, os atuais, para quem se está deixando registrado o conhecimento sobre a triste realidade do SUS - tão triste que há quem desopila o fígado desejando mandá-lo ao SUS, porque lá é lugar para se morrer, ou quem refuta toda e qualquer argumentação porque entende que, se se está mandando o Lula ao SUS, é porque se quer vê-lo morto.
No que tem de útil, tudo é só um mero protesto, tão inócuo quanto simbólico.
Demonstrei minha aplicação da reversibilidade no comentário anterior. Nas minhas questões hipotéticas, não revelei nenhum espírito de vendetta. Revelei, creio eu, o respeito à pessoa. Na verdade, às pessoas. As que sofrem e morrem no SUS.
A não ser que você saiba melhor do que eu sobre o que se passa aqui, nesta cabecinha.
No final, fiquei é com outra dúvida. Veja ai esse valente anônimo, que parece estar espumando de raiva por todos os poros. Se estivesse ele a aplicar os choques, de quantos mil volts seria a carga? Eu, hein!
ResponderExcluirCaio
ResponderExcluirDa leitura de seus comentários ao excelente artigo do Márcio só posso concluir que você precisaria estar ainda mais "atento ao que se passa por trás de suas convicções" pois, para mim, elas expressam de forma inequívoca o preconceito que a elite brasileira tem diante das "quase-pessoas" .Gostaria de lembrar os ataques horrorosos que foram feitos a Luiza Erundina quando foi prefeita de São Paulo pela sua origem nordestina .....