“Muitas pessoas morreram em nome da honestidade, da responsabilidade e do resto do ‘pacote de virtudes’, mas eu não tenho nenhuma simpatia por elas. Quero dizer, como Platão, que as virtudes não são muitas, mas uma, e seu nome é justiça (...) justiça não é uma regra concreta de ação como honestidade (...) justiça (...) é um princípio moral. Por princípio moral, quero dizer que é um modo de escolher o que é universal, um modo de escolher o que podemos desejar que todas as pessoas adotem sempre em todas as situações” (Lawrence Kohlberg).
Kohlberg foi um psicólogo moral norte-americano que se dedicou a pesquisas que deram suporte empírico a determinadas concepções filosóficas, num espectro tão amplo que abrange Platão, Kant e Habermas, entre outros. Se este fosse um mundo razoável Kohlberg teria sido um dos homens mais célebres do século XX.
Nessa passagem Kohlberg chama a atenção para a inconsistência do senso comum relacionado com o “pacote de virtudes”.
Como, por exemplo, usar palavras como “honestidade” sem vinculá-la a um princípio moral superior. Posso ser desonesto e roubar para salvar uma vida porque a vida vale mais do que a propriedade.
Por isso que Kohlberg diz que justiça não é um conjunto de regras concretas, materiais, mas um motivo para a ação, o princípio moral superior que deve reger nossa conduta.
Até hoje Platão choca seus leitores por ter expulsado os poetas da República. Ele o fez pelos mesmos motivos que estão por trás da afirmação de Kohlberg na epígrafe. Os poemas de Homero, por exemplo, eram os textos “canônicos” daquele tempo, o que se ensinava aos jovens, e por isso preocupavam tanto Platão. Os heróis de Homero possuíam um “pacote” de certas virtudes: coragem, audácia, obstinação, feitos heroicos e memoráveis. Mas também eram cruéis, irascíveis, vingativos e ressentidos. Em síntese, o que Platão queria dizer é que as virtudes daqueles heróis não estavam orientadas pelo princípio superior da moralidade que era a justiça. Por isso não eram virtudes.
Isto tudo me ocorre dizer a propósito dos nossos “indignados” moralistas que, nos últimos dias, em algumas cidades do país, saíram às ruas com a bandeira do combate à corrupção. Quem pode ser a favor da corrupção?
Estou disposto a sair às ruas contra políticos corruptos.
Mas também contra empresários corruptos.
Mas também contra os bancos e seus executivos regiamente pagos que levaram o mundo à crise que aí está, provocando desemprego, recessão e miséria e que agora são socorridos com o nosso dinheiro
Mas também contra a desigualdade social.
Mas também contra a fome e a miséria.
Mas também contra o racismo.
Mas também contra a intolerância.
Mas também contra o elitismo
Mas também contra a homofobia
Mas também contra o ódio de classe.
Mas também contra gente que odeia ver os excluídos, os “pobres”, invadindo seus espaços privilegiados.
Por isso não vou às ruas com os “indignados”, os com aspas, todos aqueles que estão interessados apenas num pacotinho de “virtudes” seletivo e conveniente, desviando os olhos das injustiças que fazem da vida de milhões de seres humanos o horror que não permite sonhar.
Vou às ruas com os indignados sem aspas que estão dizendo, no mundo todo, em Wall Street, em Barcelona e em Roma, que o modo social de vida que permite a 1 por cento apropriar-se da riqueza produzida por todos não pode mais ser suportado.
Mas não vou às ruas com a UDN.
Muito digna e pedagógica a sua abordagem para os problemas comentados. Permita-me cumprimentá-lo por essa tão rica, generosa e realista difusão de idéias que muito me lembrou as lições acadêmicas baseadas em Rudolf von Ihering (Aurich, Frísia, 22 de agosto de 1818 — Gotinga, 17 de setembro de 1892). Um forte abraço e continuado sucesso !
ResponderExcluirBrilhante, Marcio.
ResponderExcluirParabéns!
Abraços
Perfeito. No ponto. Disse o que precisava ser dito. Pingos nos is! Parabéns.
ResponderExcluirPerdoe-me a intromissão, aqui não sou amigo de ninguém nem tampouco adversário, pois não os conheço.
ResponderExcluirPeço que me aclare uma incompreensão. Apesar de tantas citações de peso me parece ter compreendido algo que me intriga.
O senhor é contra a tal marcha da corrupção pois ela enfrenta uma mas não todas as feridas de nosso país?
Peço que reveja a parte do texto que faz referência a um "pacote seletivo e conveniente de virtudes". Isto responde à sua questão. Tal movimento está sendo conduzido por setores sociais e políticos que ignoram outras mazelas do país. E por que ignoram? Porque falar delas atinge seus interesses ou a sua visão do mundo. Portanto, não estão preocupados com a justiça social. Só se preocupam com o que lhes é politicamente conveniente.
ResponderExcluirMarcio Sotelo Felippe
Não desisto, insisto. Até porque começo a me preocupar existencialmente: Seria eu um fomentador da injustiça social?
ResponderExcluirQue grupos sociais e políticos são esses? E quais exatamente são estes interesses e esta visão de mundo com que tanto se preocupam?
Estive na marcha, orgulhosamente. Ninguém me arregimentou. Fui lá porque tive notícia da sua existência. As pessoas com quem tive algum contato apareceram por lá da mesma forma.
E não estive lá porque sou um loiro de olho azul. Não me incomoda a ascensão que se percebe no shopping (aliás, não vi nada de tão diferente no shopping; ou no aeroporto; ou na loja de celulares), assim como não me incomodo em dividir espaço com outros cidadãos no vagão de metrô pouco confortável que utilizo diariamente (antes, e na verdade, gosto muito de andar de metrô). Acredito piamente que não discrimino e não compactuo com a burguesia egocêntrica. Que estaria eu fazendo por lá?
Claro que houve exageros. Claro que se reclama muito mais do governo federal do que do estadual e dos meios de comunicação; mas havia sim protestos a esse respeito. Claro que havia barbaridades, como postular pena de morte por corrupção; mas eram exceções, e a maioria pedia educação, saúde (estas em primeiro lugar), segurança, ética e, no que havia de mais específico, a discussão sobre o voto distrital - ora, se é legítimo discutir o uso de maconha, discutir o voto distrital também é.
E nenhuma filosofia há que convença: Postular uma causa boa não é bom? Por que falta conteúdo de justiça? Mas quem diz o que é justo, o que é moral? Dai, literalmente, danou-se: ao gosto do freguês, muda-se a polaridade da manifestação.
Pode-se não querer marchar com a UDN. Mas marchar com o MDB não é uma opção da mesma forma.
Também sou um indignado, sem aspas. Parabéns pelo excelente artigo!
ResponderExcluirAo colega Márcio, agradeço o espaço concedido.
ResponderExcluirMe preocupo porque há entre os diversos comentários vetados, porque ofensivos, outra manifestação minha. Em minha defesa, e para que não sobrem rusgas, esclareço que entendo que, se ofensivo, o é tanto quanto o post comentado, na medida em que ambos generalizam um tantinho as coisas.
A crítica contida no texto não é nova. Há diversos blogs que sustentam que tudo se trata de um movimento da direita conspiratória.
Aguardo que alguém a desmascare. Reitero meu relato: Fui na marcha porque quis. Não combinei nada a respeito com ninguém, além da minha esposa. E lá, não consegui identificar os intolerantes, muito pelo contrário, havia um pouco de tudo no pouco de gente que se reuniu.
Talvez seja ainda um pouco cedo para se sustentar, como fazem alguns, que se ensaia uma nova marcha da família com Deus pela liberdade. Se as coisas degringolarem a este ponto, estou fora. Se não, e até que não degringolem, estou lá.
E peço desculpas por eventuais excessos da minha juventude (como se justificar-me com a minha "juventude" já não fosse um excesso).
Um abraço
Excepcional reflexão, Marcio. Replicarei no meu blog.
ResponderExcluir