Artigo publicado na Folha de São Paulo, edição de 26 de março, sobre o genocídio armênio. A Turquia teima em não reconhecer o genocídio, contra evidências históricas esmagadoras.
O texto é de Simão Kerimian
O primeiro genocídio do século 20
A impunidade turca no genocídio armênio ajudou Hitler a justificar o
Holocausto: "Quem lembra dos armênios?", disse ele; a Turquia segue sem
reconhecer seu crime
Ao aproximarmos do mês de abril, a lembrança nos remete ao fatídico 24
de abril de 1915, consagrado como o dia de luto nacional para o povo
armênio e seus descendentes. Essa é uma data tarjada com o sangue de 1,5
milhão de armênios chacinados pelos turcos-otomanos de então.
É preciso rememorar a perda irreparável dos mártires armênios, que
representou essa hecatombe inenarrável da tragédia do genocídio de 1915,
o primeiro do século 20.
Os armênios foram forçados a abandonar seus lares diante da violência
desumana e bárbara, executava com requintes de crueldade inimagináveis
pela mente humana por ordens do governo turco-otomano.
O povo armênio, cujas raízes se estendem pelo mundo, disperso pela
emigração a que fora obrigado, acabou em uma diáspora sem rumo e sem
destino, ancorando nos portos dos países dispostos a acolhê-lo.
Esse genocídio, ainda impune, serviu de incentivo para que Hitler, de
triste memória, ao invadir a Polônia, "justificasse" o holocausto judeu.
"Quem se lembra dos massacres dos armênios?", disse ele, em uma clara
referência à impunidade dos genocidas turcos.
A atual Turquia, que deveria se redimir do crime praticado por seus
antepassados, tenta falsear a verdade histórica fartamente comprovada. A
Turquia é devedora do reconhecimento desse crime como reparação moral
perante o mundo civilizado.
Entre os que testemunharam esse genocídio, estão abalizados diplomatas
estrangeiros como o americano Henry Morgenthau, então na Turquia: "O
turco julgava ter o direito de experimentar o fio de sua espada no
pescoço de qualquer cristão. Os fatos ultrapassam as crueldade mais
diabólicas nunca imaginadas na história do mundo".
Morgenthau escreveu ainda que "as autoridades turcas deram uma sentença
de morte para uma raça inteira. Eles entenderam isso bem e, em suas
conversas comigo, não fizeram nenhuma tentativa particular de esconder o
fato".
Visconde James Bryce, da Câmara dos Lordes do Reino Unido, também
escreveu sobre o assunto. "Não se registra outro fato na história, desde
os tempos de Tamerlão, de crimes tão horrendos". Arnold Toynbee,
proeminente historiador britânico, e Winston Churchill, foram outros que
escreveram sobre o genocídio.
Para Churchill, "não há dúvidas de que este crime foi planejado e
executado por razões políticas. A oportunidade apresentou-se para
eliminar do solo turco uma raça cristã".
No Brasil, entre 70 mil e 100 mil armênios e seus descendentes,
concentrados mais no Estado de São Paulo, aguardam o reconhecimento do
genocídio pelo Brasil, a exemplo de Uruguai, Argentina, Rússia, França,
Suécia, Vaticano, Itália, Alemanha, Venezuela, Chile e vários outros
países.
A União Europeia inclusive condiciona a entrada da Turquia como membro ao reconhecimento do genocídio por ela.
Na França, o Parlamento aprovou uma lei criminalizando a negação do
genocídio armênio, que foi recentemente considerada inconstitucional
pela Justiça do país.
Esse tema foi abordado neste jornal pelo professor Luiz Carlos
Bresser-Pereira ("A boa consciência da França", em 30 de janeiro),
expressando a sua infeliz opinião equivocada, que ofendeu a memória
armênia ao fazer ilações irreais a favor do negacionismo.
Ele deve uma retratação perante a opinião pública do país e, em especial, perante a comunidade armênia.

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