domingo, 4 de março de 2012

"HOJE, CONSENTE QUEM CALA"







   5 de maio de 1977. No largo São Francisco,  primeira manifestação de massa do Movimento Estudantil após a fase 1968. Estou aí no meio. Saímos pela Líbero Badaró e entramos no viaduto do Chá. No final do viaduto, as tropas de Erasmo Dias barraram a passeata com bombas (este é o momento captado pela foto). Sentamos no chão e lemos  o manifesto "Hoje, Consente Quem Cala".




   Naquela fase de rearticulação do Movimento Estudantil, a orientação era não expor as lideranças. Em 1968 os líderes transformavam-se instantaneamente em  estrelas nacionais.




   Travassos, José Dirceu, Jean Marc, Catarina Meloni, Vladimir Palmeira eram figuras quase cotidianas  do noticiário e até capas de revistas. Em 1977, somente a "vanguarda" do Movimento, a rigor, e mal e mal,  sabia identificar o núcleo que reorganizava os estudantes.




    Era uma medida de segurança e também  evitava personalismos.  Em vez de líderes carismáticos, apareciam as Tendências. Refazendo, ligada a militantes que haviam perdido contato com a AP e que conseguiram se reorganizar por volta de 1976, Caminhando, do PC do B, Liberdade e Luta, trotskista.




   Os comunistas do PCB praticamente inexistiam nesse momento. Sofriam as consequências da ofensiva da ditadura em 74/75, que dizimou boa parte do Comitê Central e culminou no assassinato de Herzog.




   Eu me organizei no PCB em 1978, e nossa base na Faculdade de Direito da USP  era constituída por exatamente três militantes. Tínhamos quadros na Faculdade de Medicina (a base mais forte),  ECA, Direito-PUC, FAU, e não muito mais do que isso.




   Éramos chamados de reformistas pelas outras tendências - a "reforma" - e alguém desavisado ou meio distraído diria que éramos a "Tendência Reforma". No final dos anos 90, eu e Nilton de Freitas Monteiro (amigo que a morte levou há 2 anos), dois dos três militantes da base da São Francisco, fomos ao arquivo do Estado na rua Antonia de Queiroz ver as fichas do DEOPS. Achamos as nossas.  Registros de atividades, como participação em Assembléias, coisas assim, e no item "tendência" vinha  assinalado "REFORMA". O estúpido  "rato" que passava informações à polícia, que não podia por ofício ser desavisado, achou mesmo que éramos a "Tendência Reforma"...




   Entre aqueles líderes "clandestinos" de 1977 estava a Veroca. No restrito universo que sabia das lideranças  tornou-se musa. Ninguém passava incólume pelo seu charme. Bonita, articulada, determinada e segura.




   Erasmo Dias era obcecado por ela. Na invasão da PUC em 1977, surtado, enlouquecido, berrava "cadê a Veroca, quero a Veroca!". O dispositivo infame do qual o coronel fascista fazia parte já havia assassinado o pai dela, Rubens Paiva. Erasmo queria perseguir também a filha. De onde viria essa sanha? Há quem sustente que a participação eficaz de Rubens Paiva na Comissão Parlamentar que investigou e desmascarou o IBAD-IPES, duas entidades anticomunistas que recebiam dinheiro americano, selou o seu destino. Possível que isto ainda repercutisse no ódio de Erasmo Dias por Veroca.




   Não tenho certeza se sabia na época que Veroca era filha de Rubens Paiva. Provavelmente só vim a saber depois que seu irmão Marcelo Rubens Paiva publicou Feliz Ano Velho e tornou-se escritor de renome. A Faculdade de Direito fora do campus dava a nós uma vivência diferente e   eu pertencia a outra Tendência.




   Veroca é hoje a psicóloga Vera Paiva. Na cerimônia em que a presidente Dilma assinou a lei de criação da Comissão da Verdade ela iria falar em nome dos familiares de vítimas e desaparecidos. Por razões não muito claras, não lhe permitiram discursar (de qualquer forma, no episódio ela parece ressalvar Dilma, referindo-se com emoção à postura da presidenta na cerimônia).




   O discurso não pronunciado de Vera Paiva foi publicado por seu irmão. Ela o nominou "HOJE, CONSENTE QUEM CALA", a frase que era a palavra de ordem naquela manifestação de  1977.  Vai reproduzido abaixo. Também posto o vídeo de sua entrevista antes da cerimônia.




   A frase resgatada de 1977 deve ecoar pelo país.  Calar sobre as brutalidades e a fúria assassina da ditadura militar, sobre as torturas, sobre os desaparecimentos, é consentir. A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil a rever a lei de anistia e determinou a punição dos responsáveis pelas violações dos direitos humanos no período.




   O Estado brasileiro da ditadura militar praticou  crimes contra a Humanidade. Para o  Estado brasileiro de 2012 as alternativas são cumprir ou consentir.





   O discurso de Vera Paiva:






Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos
Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores
representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos
ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto
tempo nessa luta.






Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de
Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e,
dentre as centenas de famílias de mortos e desapare cidos, de milhares
de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime
militar, o privilégio de poder falar.






Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações
contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo,
estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida
cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias
marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em
2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros,
humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso
que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando,
por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio
de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente brasileiros mais
pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são
cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos
arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos
mais básicos à não discriminação e a integridade física e moral que a
Declaração dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do
nazismo em 1948.






Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua
acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação
constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que
vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.






O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de
opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada
geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua
sustentação.






Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e
exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito
pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar.






Em Março desse ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no
Congresso Nacional, ressaltei que há exatos 40 anos o tínhamos visto
pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na
luta “Pelo Petróleo é Nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília,
depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era
um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai
de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter
jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado,
foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única
prova de que foi preso. Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no
dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um
dos cenário de horror n aqu eles tempos. Revi minha irmã com a alma
partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em
gabinete passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter
noticias. Nenhuma noticia.






Apenas na inauguração da exposição em São Paulo, 40 anos depois, fizemos
pela primeira vez um Memorial onde juntamos família e amigos para
honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu
que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos
diferentes...Aceitar que ele tinha sido assassinado, era matá-lo mais
uma vez.






Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que
nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um
caminho para a paz.






Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas
na alma do período de exceção e de sermos mulheres, mãe, funcionária
pública. Compart ilhamos os direitos humanos como referência ética e
para as políticas públicas para o Brasil. Também com 19 anos me envolvi
com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava
essa cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa
mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da USP,
Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela
ditadura, ajudei a organizar a 1a mobilização nas ruas desde o AI-5,
contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos
políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel
Erasmo Dias, andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo
uma carta aberta a população cuja palavra de ordem era




HOJE, CONSENTE QUEM CALA.





Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje,
no ato que sanciona a Comissão da Verdade . Para esclarecer de fato o
que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem calar consentirá, não é
mesmo?






Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para
investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos
consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices do
sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de
horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue
inquestionada nos fatos.






A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado
de São Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a
falta de democracia e justiça social, que seguem nos desafiando. O
Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes
dados do IBGE confirmam que continuamos uma país rico, mas absurdamente
desigual... Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com
esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no
mesmo período fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos
internacionais e até pela Revista Economist, a avançar nesse processo.
Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a memória não é
revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgadas, com o
direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fun damental
para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a
paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do
Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a
memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a
valorize.





Termino insistindo que a
DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO.



E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.



Obrigada



Vera Paiva



Universidade de São Paulo - PST & NEPAIDS




Entrevista de Vera Paiva















   



  

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