terça-feira, 17 de janeiro de 2012

TOLSTOI NA BARRA FUNDA


                              
    Ressurreição, de Tolstoi, saiu vertido diretamente do russo (sempre lemos os russos em traduções do francês).  Esse romance (esclarece o tradutor Rubens Figueiredo na apresentação) foi o  maior sucesso de  Tolstoi em vida. Surpresa: mais do que Guerra e Paz e Anna Karenina,  que hoje cultivamos como o seu auge. O  relativo desprezo posterior  de Ressurreição  deveu-se  à crítica  de que se tratava de um romance de tese, uma apologia do Cristianismo puro adotado por Tolstoi no fim da  vida, baseado no Sermão da Montanha, nas ideias de Rousseau, na condenação, de fundo libertário-anárquico,  do Estado e do Cristianismo institucional. Rubens Figueiredo diz que esse desprezo foi injusto e a obra deve ser resgatada.


   Deve. No mínimo porque, como adiantei no título do post, não tenho dúvida alguma de que Tolstoi visitou a Barra Funda (para quem não é paulista: Barra Funda é o bairro em que está localizado o fórum criminal de São Paulo). Visitou  todos os fóruns criminais do mundo, desde o de  São Petersburgo no século XIX até a  nossa Barra Funda do século XXI.


   A jovem ex-criada Katiucha, engravidada pelo nobre Nekhliúdov, cai  na prostituição e acaba presa anos depois por uma acusação de latrocínio. Nekhliúdov, que nunca mais a vira, está no corpo de jurados.


   Tolstoi descreve o julgamento. Descreve o que vemos hoje nos fóruns criminais. Está tudo lá. A psicologia de  juízes, acusadores e advogados. A sensação de superioridade  que deságua na indiferença e negligência  em relação aos réus. O descaso com réus pertencentes ao mundo dos “invisíveis”, os excluídos.  As pequenas e mesquinhas preocupações do cotidiano se sobrepondo ao rigor e método necessários a um julgamento criminal (Em  12 Homens e uma Sentença, o filme de Sidney Lumet, há uma passagem que parece ter sido inspirada em Ressurreição: um dos jurados quer acabar logo com o julgamento porque tem ingresso para um jogo de baseball). (1)


   Ressurreição  me lembrou um processo de latrocínio em que atuei. Que ficou especialmente marcado na memória por causa de um dos réus, que nem era o meu. Os acusados somavam cinco.  Um deles captou  minha atenção porque fugia do modelo. Era militante de Comunidade Eclesial de Base. Morador da periferia  militante de causas sociais. Acusado de latrocínio? Não batia. Podia ser, podia ser, mas não batia. Ele dava impressão de revolta surda e  descrença em tudo naquele momento, aquela revolta que provoca indiferença pelo próprio destino.  O seu advogado  atuava nos casos criminais em que a Igreja tinha interesse.


   Interrogatório, instrução, prova acusatória se desenrolando e nada que me convencesse. Reconhecimentos frágeis. Não me abalaram.  Para dizer sinteticamente,    prova  porca. No entanto o juiz era mão pesada e tinha a característica de apoiar -se na polícia acriticamente. Preocupava.


   Veio  a audiência final da prova acusatória. Depoimento do policial que prendeu o o militante católico pouco tempo após os fatos, coisa de cinco ou dez minutos.  Deteve-o  num bar das imediações. Bar cheio, começo da noite, happy hour de cachaça  e cerveja na periferia.


   “Por que o senhor  prendeu?”


    “Eu pus a mão no coração de todos que estavam no bar”, respondeu o PM, “e o dele estava acelerado,  tinha corrido muito. Então prendi”.


   Nesse momento fiquei aliviado.  Prova porca mesmo. Taquicardia? Sentença condenatória de latrocínio por taquicardia? (2)  Não dava. Mesmo aquele juiz que acreditava piamente na polícia se daria por vencido. (3)


   Veio a sentença. Todos condenados a penas pesadíssimas. Foi nesse momento que comecei a desconfiar da minha fé ingênua e forte nas convicções óbvias do cotidiano. Como assim, taquicardia? Mas que pessoa no mundo não está sujeito a uma taquicardia diante de um policial ameaçador sedento por uma prisão? Eu tenho taquicardia até com Marronzinho sacando o talão de multas do bolso.


   Não sei contar o resultado do recurso. O restante da lembrança é confuso. É possível que não tenha atuado mais naquela Vara Criminal. Ou o acórdão não se fixou na minha memória. A primeira experiência com o absurdo marca. As demais vão gradativamente se  transformando em normalidade. Não que tivesse se tornado indiferente na época;  é que os mecanismos da memória tem sua lógica própria e o primeiro impacto é muito mais forte. A rigor, eu tenho um resquício de  lembrança de  que a condenação foi mantida pelo Tribunal, mas não quero afirmar isto por não estar seguro.


   E Katiucha? O júri decidiu absolvê-la do latrocínio. Mas houve um problema de redação e o que ficou escrito pelo presidente do júri induziu a erro o  juiz togado. Foi condenada por erro de redação.  Nekhliúdov, atordoado pela culpa do passado durante todo o julgamento, somente percebe após o final da sessão. Tenta  corrigir o equívoco, mas é derrotado pela indiferença geral (não estou atrapalhando quem não conhece o livro, isto é  o início do enredo, não o final).


   Taquicardia e erro de redação. A literatura na Rússia czarista do século XIX  e a realidade do   Brasil no século XX: “de te fabula narratur”. 


   Achei que o operário católico era inocente do latrocínio. Certeza absoluta não tinha. Era uma  quase certeza. Certeza absoluta eu tinha de que ninguém  pode ser preso em flagrante de latrocínio por taquicardia.

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Notas



1 -  O filme completo de Sidney Lumet, legendado, está aqui





2 -  Há algo em torno de vinte causas possíveis de taquicardia além do esforço físico, fisiológicas  ou psíquicas



3 -  Marcelo Semer escreveu um excelente texto sobre a terrível locução "atitude suspeita": "Muitas vezes eu pergunto aos policiais: mas qual era a atitude suspeita?As respostas são as mais diversas e até contraditórias. O
sujeito estava andando em uma direção e passou a andar em outra. Ele
estava parado e, então, começou a andar, ao vir a viatura. Quando nós
passamos, ficou completamente parado e não saiu do lugar.A
reação facial também é determinante da suspeita: seus olhos mostravam
nervosismo, quando nos viu. Ele abaixou a cabeça quando olhamos para
ele. Fingiu que não era com ele e continuou olhando para outro lado. O
rapaz me encarou de frente, doutor, quando o encarei. E por aí vai".
O texto completo está aqui





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