quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ROSA LUXEMBURGO


Do Esquerda.net, via blog Tecedora











Milhares de pessoas participaram em Berlim da homenagem a Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht,
assassinados 15 dias depois de terem fundado o Partido Comunista da
Alemanha (KPD), faz este domingo 93 anos. As comemorações incluiram um
comício "contra o poder dos bancos", com a ativista chilena Camila
Vallejo e dirigentes da esquerda alemã.




Na parte da manhã teve lugar a
cerimónia tradicional da deposição de cravos vermelhos no memorial aos
dois dirigentes revolucionários alemães, com a presença de figuras do
Die Linke como os presidentes Gesine Lötzsch e Klaus Ernst, Gregor Gysi e Oskar Lafontaine.



A manifestação que se seguiu
contou com a presença de milhares de pessoas que fizeram ouvir o
protesto contra o capitalismo, o governo de Angela Merkel e o poder dos
bancos. Este foi também o tema forte do comício da tarde, a que aos
dirigentes da esquerda alemã e do Partido da Esquerda Europeia (PEE) se
juntou Camila Vallejo, a dirigente estudantil chilena que tem
protagonizado a maior mobilização social do país nos últimos anos. O
deputado bloquista Luís Fazenda esteve presente nesta jornada de
homenagem e de luta da esquerda na Alemanha, a convite do PEE.


 É
uma evocação de grande significado para a esquerda alemã que, naquele
dia fatídico perderia, de uma forma violenta, os seus dois principais
dirigentes revolucionários. Desde então, ano após ano, a população de
Berlim vai neste dia ao cemitério de Friedrichsfelde mostrar que não
esqueceu nem os mortos, nem os responsáveis.


Estes 90 anos de romagens
atravessaram todos os difíceis anos 20, o regime nazi, a guerra, a
República Democrática Alemã, a reunificação do país, a União Europeia.




Assumiu primeiro a forma de ato
de revolta e protesto, depois de ação quase clandestina, após a Segunda
Guerra a forma de ato oficial com pompa de Estado, nos anos 90 de
afirmação contra a indiferença e o esquecimento. Mas, havendo ou não
convocatória e organização oficial ou partidária, dezenas de milhares de
berlinenses rumam, naquelas frias manhãs de janeiro, ao cemitério para
deixar uma flor.




Não uma flor qualquer: tem de ser
um cravo vermelho. Uma flor com história política na Alemanha. Quando
os manifestantes do 1° de maio foram proibidos de transportar bandeiras
vermelhas e quando a polícia lhes arrancava mesmo da banda do casaco uma
tira vermelha que simbolizava a bandeira interdita, transportar na mão
uma flor foi a solução criativa e resistente para que maio continuasse
vermelho. O cravo, flor do maio dos trabalhadores alemães, foi o símbolo
espontaneamente escolhido pelos que em 1920 vieram comemorar, pela
primeira vez, o aniversário do assassinato.




Os últimos dias



Estes eram tempos de grande tensão na Alemanha. No início da guerra, em 1914, Rosa Luxemburgo
e Karl Liebknecht, então proeminentes figuras do Partido Social
Democrata (SPD), estão entre os mais determinados opositores à guerra
que começa e à decisão parlamentar de votar o orçamento necessário para o
esforço de guerra, que a maioria do SPD considerava um imperativo
nacional. Uma cisão dá então origem à liga Spartakus, que organiza
aqueles que não só se opõem ao esforço de guerra, como trabalham para
que a guerra se transforme numa revolução socialista. Na sequência desta
atividade política, Rosa e Karl serão presos em 1916. Em novembro de
1918, uma revolução destitui o Kaiser e devolve-lhes a liberdade.
Estávamos no dia 8. No dia seguinte, Liebknecht, de uma varanda da
residência fortificada do Kaiser, proclama a República Socialista Livre
(Freie Sozialistische Republik). Nessa mesma noite, o SPD declara, a
partir do Reichstag, a República de Weimar.




Juntos e em liberdade, Luxemburg e
Libknecht reorganizam a liga Spartakus, fundam o jornal Bandeira
Vermelha e, no dia 14 de dezembro, publicam o novo programa
revolucionário da liga. Entre os dias 29 e 31, mesmo no fim do ano de
1918, realizam um congresso, conjuntamente com mais duas organizações,
uma de socialistas independentes e outra de comunistas
internacionalistas. As três fundem-se nesse congresso e, no dia 1 de
janeiro de 1919, anunciam que nasceu o novo Partido Comunista da
Alemanha (KPD).




O novo ano começa com mais
levantamentos revolucionários em Berlim. O novo Chanceler, Friedrich
Ebert, do SPD, dá ordens ao Freikorps, uma força de elite de tendência
ultraconservadora, para esmagar a revolta. No dia 15, os militares do
Freikorps prendem Rosa Luxemburg e Karl Libknechet, entre outros
revolucionários. Às 20:45, um carro chega ao hotel Eden, sede do
Freikorps, com Rosa sob prisão. 10 minutos depois chega outro carro
transportando Libknecht. O capitão Pabst interroga-os sumariamente e
ordena que sejam eliminados. Rosa, recebe uma coronhada, é arrastada
para um carro e é abatida com um tiro na cabeça. O seu corpo é levado e
às 22:30 o carro regressa e os seus ocupantes informam que o cadáver foi
lançado ao rio Spree. Só viria a ser encontrado meses mais tarde, no
dia 1 de junho.




O outro carro, que levou
Libknecht, regressa pelas 23:00 com a missão cumprida de uma forma algo
diferente. O preso foi levado vivo, foi maltratado e assassinado nos
jardins junto ao Zoo de Berlim. O corpo foi entregue na morgue, sem
qualquer identificação.


O oficial de baixa patente que
executou a ordem de disparar sobre Rosa, Otto Runge, recebeu papéis
falsos e dinheiro para desaparecer. Mas viria mais tarde a ser levado a
julgamento. Pediram-lhe que confessasse o duplo homicídio, mas dizendo
que tinha sido um ato de iniciativa individual devido a problemas de
insanidade mental. Foi condenado a 25 meses de prisão, mas poucos meses
depois já estava em liberdade. O regime nazi viria mesmo a atribuir-lhe
uma recompensa pelo seu ato.




Os oficiais superiores que deram
as ordens e organizaram a operação nunca foram julgados. Um deles, o
capitão Pabst, que interrogou Rosa e Karl e terá dado a ordem de
execução, numa entrevista dada em 1962 à revista "Der Spiegel", reiterou
que tinham sido o ministro da defesa e o próprio chanceler Friedrich
Ebert, ambos do SPD, que tinham dado a aprovação para as suas ações.




Ironia da história. Hoje a grande
fundação ligada ao partido alemão da esquerda, Die Linke, é a Fundação
Rosa Luxemburg. E a grande fundação dos sociais-democratas, ligada ao
SPD, é a Fundação Friedrich Ebert. A política alemã não se compreende
sem ter sempre o livro de história na mão.




A Alemanha é verdadeiramente o
país onde tenho sentido, como em nenhum outro, a presença constante do
último século, com todo o seu peso e todo o seu dramatismo. Mas talvez
só a sua história contenha todo aquele denso emaranhado de emoções e
dramas que consegue impelir, ano após ano, tantos milhares de pessoas a
percorrerem longos caminhos de neve para depositarem um cravo vermelho
numas pedras com uns nomes gravados. Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht -
Die Toten mahnen Uns.




 













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